INTRODUÇÃO: O Desafio da Eficiência do Azoto e a Oportunidade do Uso da Tecnologia

Na produção de forragens de inverno, sob clima mediterrânico a aplicação de fertilizantes azotados é uma das maiores despesas e um ponto crítico para a sustentabilidade. A resposta dos sensores próximos a doses variáveis de fertilizante azotado em culturas forrageiras de inverno sob um clima mediterrânico pode ser compreendida através do uso de várias tecnologias de sensores e seu impacto no crescimento das culturas, na eficiência do uso do azoto (NUE) e nos resultados ambientais. Esses sensores medem o estado nutricional azotado das culturas, o teor de clorofila, e, geralmente, os valores do índice de vegetação por diferença normalizada (do inglês Normalized Difference Vegetation Index; NDVI). Patle et al., (2023) demonstraram que a dose de fertilizante tem um impacto significativo no teor de azoto (N) das folhas e no índice de clorofila, com os valores do NDVI a aumentarem ao longo do ciclo fenológico. Sistemas baseados em sensores industriais e sistemas de controlo compatíveis com a norma ISO 11783 medem respostas espectrais para ajustar as doses de aplicação de N em tempo real.

A solução passa pela Agricultura de Precisão e pela implementação da Fertilização a Dose Variável (do inglês Variable Rate Application; VRA).

Esta estratégia na fertilização azotada demonstrou aumentar o N absorvido (NUp) e a NUE em 58% em comparação com a aplicação uniforme, embora os aumentos de rendimento nem sempre sejam significativos (Stamatiadis et al., 2018). Hagne t al., (2025), demonstraram que a VRA levou a uma redução na aplicação de N de até 38 kg ha−1 por ano, melhorando a NUE em 15% e reduzindo a variabilidade nos balanços de N. O uso de sensores para VRA pode reduzir a poluição ambiental, minimizando as perdas de N e otimizando o uso de fertilizantes. Por exemplo, Medel-Jiménez et al., (2022) mostraram uma redução de 8,6% nas emissões de CO2 com VRA em comparação com os métodos convencionais.


A experiência, o encadeamento e a herança de uma metodologia

Desde 2016, os seguintes projetos têm sido implementados em campo na Herdade da Comenda – Pólo de Inovação INIAV Elvas (4706572.00 N; 784908.00 W), que se insere na Zona Vulnerável de Nitratos de Elvas:

  • MechSmart Forages (https://mechsmartforages.ipportalegre.pt),
  • ISOmap Forragem ALT20-03-0246- FEDER-000062 (https://isomapforragem.ipportalegre.pt)
  • Projeto PRR-C05-i03-I-000027 – LA3.3 – GEEBovMit (https://www.iniav.pt/projetos/Geebovmit-LA3-3), financiado pelo Programa operacional PRR.
  • Piloto Experimental do InovTechAgro – Centro Nacional de Competências para Inovação Tecnológica do Sector Agroflorestal (https://www.inovtechagro.pt)
  • Projeto “Modelação da Fertilização Azotada de Culturas Forrageiras em Clima Mediterrâneo” – Bolsa de Investigação para Doutoramento 2024.02421.BDANA

Num itinerário de conservação de solo, através da prática de sementeira direta de forragens à base de gramíneas e leguminosas (em estreme e consociadas), com monitorização do vigor vegetativo das culturas por Deteção Remota, do teor de água no solo, cartas de produtividade e ainda a monitorização dos teores de nutrientes e matéria orgânica do solo, bem como a eficiência de uso do azoto.

Têm vindo a ser alcançados resultados de mapeamento de zonas homogéneas de solo, o benchmark do uso do fertilizante azotado aplicado, o workflow de uso de imagens de deteção remota para estimar o estado nutricional das plantas por técnicas não-invasivas, e a logística e operacionalidade de implementação de novos processos de trabalho em contexto real de campo, como o caso do uso de sensores On-the-go. Estes resultados têm vindo a ser publicados e disponibilizados em acesso livre em 8 artigos científicos em jornais internacionais com revisão por pares, indexados em Scopus, cerca de 2 dezenas de participações em conferências nacionais e internacionais, e ainda 2 trabalhos de fim de curso CTESP, 6 teses de licenciatura, 3 teses de mestrado (mais 2 no prelo), e 1 tese de PhD (em processamento).

Tecnologia em Ação: O Sensor On-the-Go (OTG)

O sucesso da aplicação de N através de VRA com base em sensores é promissor, no entanto, isso depende de uma calibração precisa, da compreensão das condições específicas do local e de considerações económicas (He, 2023).

O ensaio decorreu entre 30 de outubro de 2024 e 27 de março de 2025, numa parcela de sequeiro com 1,50 ha, na Herdade da Comenda — Pólo de Inovação do Instituto Nacional de Investigação Agrícola e Veterinária, em Elvas, região do Alentejo, Portugal (38,894° N, −7,055° W).

Primeiramente, validando a tecnologia on-the-go, que oferece inteligência artificial (IA) em tempo real e capacidades VRA, diferenciando-a na agricultura de precisão. A chave para esta gestão eficiente é o uso de um sensor passivo On-the-Go (OTG) instalado no trator (Figura 1), compatível com o protocolo ISOBUS. Este sistema inovador avalia o vigor vegetativo da cultura (através do índice NDVI) no exato momento em que o fertilizante está a ser aplicado. Em segundo lugar, adotou-se uma abordagem integrada e complementar, explorando a sinergia entre diferentes sensores para melhorar a compreensão da resposta das culturas. O terceiro objetivo foi apresentar resultados de eficiência relacionados com a NUE, destacando o impacto tanto na sustentabilidade como na produtividade.

Figura 1 – Trator New Holland T5.140 dynamic command, com distribuidor de adubo Amazone ZA – TS 4200 acoplado e sensor On-The-Go no topo da cabine

Este trabalho foi realizado no contexto específico da região do Alentejo e das suas culturas forrageiras de inverno, proporcionando um “laboratório” único para validar a robustez desta tecnologia em condições mediterrânicas específicas.

O que destaca este tipo de sensor utilizado é:

  • a sua capacidade de processamento com IA integrada. Esta IA realiza uma função crucial: limpa os dados capturados em tempo real, identificando e eliminando elementos não-vegetativos (como caminhos ou falhas de sementeira). Este pré-processamento garante que a prescrição de N é baseada exclusivamente na biomassa real da cultura, permitindo que a unidade de fertilização ajuste a dose de forma imediata e precisa.
  • Funciona como sensor passivo (fonte luz externa), dependendo da luz solar natural para o seu funcionamento. Para garantir a precisão dos dados sob condições de luz variáveis ao longo do dia, o sensor está equipado com dois sensores adicionais (Figura 2) que medem tanto a intensidade da luz como o ângulo da incidência da radiação solar. Isto permite que o sistema autocalibre continuamente as flutuações na luz ambiente, garantindo uma recolha de dados fiável e consistente.
Figura 2 – Sensor On-The-Go (à esquerda) e controlador, cabos de ligação à linha ISObus, e detalhe da parte superior do sensor, onde se localizam os sensores de radiação (à direita)

O fertilizante (nitrato de amónio a 27% N) foi aplicado dinamicamente, ajustando-se entre mantendo uma dose máxima de 150 kg ha⁻¹ (dose do agricultor), em zonas de alto vigor vegetativo, diminuindo para uma dose mínima (50% da dose máxima – 75 kg ha⁻¹) em zonas de menor vigor vegetativo (Figura 3).

Resultados Comprovados: Economia e Eficiência

A aplicação de taxa variável orientada pelo sensor OTG produziu resultados práticos e mensuráveis, essenciais para a rentabilidade da operação:

  1. Poupança de Fertilizante Significativa: A estratégia VRA resultou numa redução de 15,23% na quantidade total de fertilizante N aplicado, em comparação com a dose fixa usual de 150 kg ha⁻¹.
  2. Ganhos Económicos: Esta percentagem traduz-se numa poupança média de 22,90 kg ha⁻¹ de fertilizante.
  3. Produtividade Inalterada: É crucial sublinhar que esta otimização foi alcançada sem comprometer a produtividade da cultura. A produtividade média de Matéria Fresca (erva) atingiu cerca de 11 033,33 kg ha⁻¹.

Monitorização e Validação: O Papel dos Sensores Complementares

Para garantir uma avaliação completa da resposta da cultura, foram integrados outros sensores:

  • Veículo Aéreo Não Tripulado (VANT): Um drone com câmara multiespectral permitiu monitorizar o campo em alta resolução. O índice NDVI recolhido após a fertilização (VANT_II) demonstrou ser um indicador particularmente sensível ao estado nutricional, apresentando fortes correlações com a Proteína Bruta (PB) e a Absorção de Azoto (NUp) das plantas.
  • Sensor de mão multiespectral: Utilizado para medições pontuais e validação em campo.

A combinação da aplicação dinâmica (OTG) com a monitorização de alta resolução (VANT/sensor de mão) oferece um quadro robusto, permitindo não só aplicar com precisão, mas também medir a efetividade do N na qualidade da forragem (PB e NUp).


CONCLUSÃO:

O Caminho para a Sustentabilidade Agronómica

A integração de sensores óticos avançados, nomeadamente o sistema OTG para controlo de aplicação em tempo-real e os sensores complementares (VANT e sensor de mão) para avaliação detalhada, estabelece um novo paradigma para a gestão sustentável do N em culturas forrageiras de inverno.

Esta abordagem da agricultura de precisão no ambiente mediterrânico:

  • Otimiza a utilização de fatores de produção, gerando poupanças económicas diretas.
  • Aumenta a eficiência de uso do azoto, contribuindo para a sustentabilidade ambiental.

Garante a produtividade da cultura ao adaptar a nutrição às necessidades reais e variáveis de campo.


Para os profissionais, a tecnologia está validada e demonstra ser uma solução prática e escalável para aumentar a rentabilidade e a eficiência agronómica.

Todo o delineamento experimental, resultados, discussão e conclusões podem ser analisadas de forma mais aprofundada em Silva, L., Brunelli, C., Moreira, R., Barbosa, S., Fernandes, M., Miguel, A., Maçãs, B., Valero, C., Patanita, M., Lidon, F.C. & Conceição, L. A. (2025). Response of Nearby Sensors to Variable Doses of Nitrogen Fertilization in Winter Fodder Crops Under Mediterranean Climate. Sensors, 25(18), 5811. https://doi.org/10.3390/s25185811

Agradecimentos:

Os autores expressam os seus agradecimentos a todas as entidades que tornaram este ensaio possível, pelo apoio logístico e material essencial à investigação em contexto real de campo. Um agradecimento especial ao INIAV pela cedência dos campos de ensaio e à Associação de Criadores de Bovinos Mertolengos pela disponibilização das culturas instaladas. O apoio da ADP–Fertilizantes no fornecimento dos fertilizantes azotados, da Miraldino e CNH na cedência do trator, licenças de utilização, sensor on-the-go e recursos humanos alocados foi crucial para a operacionalização do ensaio.

Este ensaio enquadra-se no projeto PRR-C05-i03-I-000027 – LA3.3 – GEEBovMit, contou com o suporte dos centros de investigação: VALORIZA – Centro de Investigação para a Valorização dos Recursos Endógenos do Instituto Politécnico de Portalegre; Departamento Ciências da Terra, da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade NOVA de Lisboa; MED e CHANGE; e ainda com o suporte da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) através do financiamento da bolsa de investigação 2024.02421.BDANA.


Luís Silva1,2,3,4, Caroline Brunelli4,5, Raphael Moreira5, Sofia Barbosa1,6, Manuela Fernandes7, Andreia Miguel7, Benvindo Maçãs6,8, Constantino Valero9, Manuel Patanita6,10,11, Fernando Cebola Lidon1,6, Luís Alcino Conceição2,3,4

1Departamento Ciências da Terra, Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade NOVA de Lisboa, Campus da Caparica, 2829-516 Caparica, Portugal. 2VALORIZA – Centro de Investigação para a Valorização dos Recursos Endógenos, Instituto Politécnico de Portalegre, 7300-110 Portalegre, Portugal. 3InovTechAgro – Centro Nacional de Competências para a Inovação Tecnológica do Sector Agroflorestal. 4Escola Superior de Biociências de Elvas, Instituto Politécnico de Portalegre, Quartel do Trem, Avenida 14 de Janeiro nº21, 7350-092 Elvas, Portugal. 5Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo, Campus de Itapina, Espírito Santo, Colatina 29717-000 Brasil. 6Centro de investigação GeoBioTec, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, Campus da Caparica, 2829-516 Caparica, Portugal. 7ADP –Fertilizantes, Apartado 88, 2616-907 Alverca do Ribatejo, Portugal. 8Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P., 7351-901 Elvas, Portugal. 9LPF–TAGRALIA, Escola Técnica e Superior de Engenharia Agrícola, Alimentar e de Biossistemas (ETSIAAB), Universidad Politécnica de Madrid, Avenida Puerta de Hierro 2-4, 28040 Madrid, Spain. 10Escola Superior Agrária de Beja, Instituto Politécnico de Beja, Rua Pedro Soares, 7800-295 Beja, Portugal. 11MED—Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento e CHANGE-Instituto da Sustentabilidade e Alteração Global, Universidade de Évora, Mitra, Ap. 94, 7006-554 Évora, Portugal


Referências: https://qr1.me-qr.com/pt/text/le8m2EwR

→ Pode consultar este e outros artigos publicados na Revista Voz do Campo (edição de janeiro 2026).

 


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