O Centro de Estratégia Regional da Carne dos Açores (CERCA), em parceria com a Associação Agrícola de São Miguel, prepara a 3.ª edição do Azores Beef Fest, marcada para 18 de julho, com o objetivo de consolidar o evento como plataforma de promoção e valorização da carne bovina açoriana, reforçando a diferenciação do produto regional e a ligação entre produção, gastronomia e mercado. Conversámos com o presidente do CERCA, o Comendador Jorge Rita, para perceber as expetativas para esta edição e o papel estratégico do evento na fileira da carne dos Açores.

O comendador Jorge Rita, presidente do CERCA

O Azores Beef Fest afirma-se como um evento de referência na promoção da carne dos Açores. Que balanço faz das edições realizadas e que importância estratégica atribui para esta 3ª edição?

O Azores Beef Fest está a consolidar-se como um marco no calendário agropecuário dos Açores. Ao longo das edições, temos testado diferentes estratégias de promoção, tanto do evento como da carne e o balanço tem sido francamente positivo. Esta 3.ª edição reforça a ambição de afirmar o festival como uma plataforma anual de valorização da produção bovina açoriana. 

De que forma o Azores Beef Fest contribui para a valorização da bovinicultura açoriana e afirmação da qualidade diferenciadora da carne produzida na região?

O evento celebra a qualidade da nossa carne, selecionando animais com acabamento adequado para abate e valorizando não apenas cortes de 1.ª categoria. Apresentamos métodos de confeção que destacam peças menos nobres, como o peito no pit smoker ou a costela em fogo de chão, demonstrando ao consumidor que o bovino oferece muito mais do que bifes. Estamos a promover uma verdadeira cultura de consumo da carne bovina na Região, assente na diversidade e no potencial gastronómico do produto.

“PARA O FESTIVAL, O CRITÉRIO NÃO É A RAÇA, MAS O POTENCIAL DE QUALIDADE DA CARCAÇA E DA CARNE SELECIONADA”

E em termos de raças, quais estarão em destaque no festival?

Nos Açores são utilizadas várias raças, na sua maioria em cruzamento terminal. O que realmente distingue a nossa produção é o sistema baseado em pastagens, que confere características organoléticas únicas à carne. Para o festival, o critério não é a raça, mas o potencial de qualidade da carcaça e da carne selecionada.

A gastronomia tem um papel central na promoção do produto. Como é que a transformação do produto em experiência gastronómica pode ajudar a reforçar o valor da carne dos Açores?

O tema central do evento é o churrasco e é à sua volta que tudo se desenvolve. Desde peças para grelhar na parrilha, ao peito no pit smoker ou ao hambúrguer artesanal, tudo é preparado por profissionais que convidamos para partilhar conhecimento e formar cozinheiros locais. Esta troca de experiências multiplica a cultura do churrasco e da carne bovina, aproximando o consumidor do produto e valorizando-o através da experiência gastronómica.

“É ESSENCIAL AUMENTAR A EFICIÊNCIA PRODUTIVA, APOSTAR NA QUALIDADE E PROCURAR MERCADOS QUE VALORIZEM O NOSSO PRODUTO”

O setor da bovinicultura nos Açores enfrenta desafios como custos de produção, insularidade e exigências de mercado. Quais são hoje as principais preocupações dos produtores?

Sem dúvida que vivemos todos hoje num mundo muito menos previsível. O mercado da carne de bovino nunca esteve tão justo para os produtores e bom para os operadores, mas a atual situação geopolítica, nomeadamente o conflito envolvendo o Irão, está a gerar impactos significativos em toda a cadeia desde produtores, a operadores e consumidores. Numa região ultraperiférica como os Açores, estes efeitos podem ser ainda mais acentuados.

É essencial aumentar a eficiência produtiva, apostar na qualidade e procurar mercados que valorizem o nosso produto.

Em que medida eventos como o Azores Beef Fest ajudam a criar novas oportunidades de mercado e valorização da produção local fora da região?

Um dos objetivos de realizar o evento anualmente é precisamente captar consumidores e também oportunidades de negócio. O Azores Beef Fest tem potencial para se tornar um evento-chave na abertura de novos mercados e na valorização da carne açoriana fora da Região.

“A NOSSA PRODUÇÃO TEM DE SER SUSTENTÁVEL OU NÃO SERIA UM SETOR DE ATIVIDADE ECONÓMICA NOS AÇORES. AINDA ASSIM, EQUILIBRAR OS TRÊS PILARES, ECONÓMICO, AMBIENTAL E SOCIAL, CONTINUA A SER UM DESAFIO” 

A sustentabilidade e o bem-estar animal são hoje temas centrais na agricultura. Como é que a bovinicultura açoriana tem evoluído nestes domínios?

A nossa produção tem de ser sustentável ou não seria um setor de atividade económica nos Açores. Ainda assim, equilibrar os três pilares, económico, ambiental e social, continua a ser um desafio.

No que diz respeito ao bem-estar animal, as nossas condições edafoclimáticas e o sistema de pastoreio conferem elevados padrões de bem-estar, mas atualmente as grandes superfícies querem essa certificação e estamos a trabalhar para responder a essas exigências.

Que papel desempenham as associações agrícolas e os parceiros institucionais na organização e sucesso deste tipo de iniciativas?

São absolutamente essenciais. No Centro de Estratégia Regional para a Carne dos Açores (CERCA) estão representados todos os elos da fileira:

. produtores

. operadores

. administração regional

Importa referir que iniciativas como esta só são possíveis graças à colaboração de todos os intervenientes.

“A MÉDIO E LONGO PRAZO, O IMPACTO DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS EXIGIRÁ QUE AGRICULTURA E PECUÁRIA REFORCEM A SUA RESILIÊNCIA E CAPACIDADE DE ADAPTAÇÃO”

De que forma os diferentes setores de atividade nos Açores contribuem para o desenvolvimento económico, social e ambiental da região, e quais os principais desafios e oportunidades para a sua valorização e sustentabilidade no futuro?

A agricultura é um dos pilares do desenvolvimento socioeconómico dos Açores e tem um efeito multiplicador noutros setores, como por exemplo o turismo.

A médio prazo, os principais desafios prendem-se com possíveis alterações à Política Agrícola Comum (PAC), nomeadamente a ameaça à autonomia do POSEI, instrumento financeiro vital para regiões ultraperiféricas, e a proposta de redução do orçamento global.

A médio e longo prazo, o impacto das alterações climáticas exigirá que agricultura e pecuária reforcem a sua resiliência e capacidade de adaptação, garantindo simultaneamente a soberania alimentar.

Olhando para o futuro, que objetivos devem ser prioritários para garantir que a carne dos Açores continue a afirmar-se como um produto de excelência?

Para o CERCA, é essencial manter o foco na formação dos produtores, matadouros e operadores, assim como a divulgação e a promoção da carne e do seu consumo, como um alimento com carne de bovino é um alimento rico em proteínas de alto valor biológico, para além de outras vitaminas e minerais importantes que deve fazer parte de uma dieta equilibrada.

→ Leia este e outros artigos na Revista Voz do Campo (edição de maio 2026).