Autoria: António Ramos
(aramos@ipcb.pt) Professor-coordenador (aposentado) da Escola Superior Agrária de Castelo Branco

50 anos de evolução no pomar português

O conhecimento é fundamental para criar tecnologias inovadoras, mas é crítico na evolução tecnológica dos pomares, para usar ou aplicar as inovações de forma vantajosa e evitar erros (na implantação ou na gestão dos pomares) que possam pôr em causa os maiores investimentos associados à modernização das plantações.

CONHECIMENTO E INOVAÇÃO TECNOLOGIA

No primeiro quartil do séc. XXI, a inovação tecnológica tem evoluído a uma velocidade “vertiginosa” e tem “invadido” todos os aspetos da atividade humana. O setor primário, nomeadamente a agricultura, tem sido alvo, também, de um importante desenvolvimento tecnológico, nomeadamente ao nível da monitorização, ao nível da gestão integrada dos fatores de produção e dos recursos humanos, ao nível da melhoria da eficiência e sustentabilidade das plantações, ao nível do apoio às tomadas de decisão ou ao nível dos equipamentos… a caminho de uma plena utilização da IA (inteligência artificial).

O “caminho para a IA” é, certamente, bastante atrativo… apela à “natural preguiça” do ser humano moderno!… Que bom ter um conjunto de equipamentos controlados à distância e um sistema que faça todo o trabalho “chato” de monitorização e que, até, seja capaz de tomar decisões autonomamente!… Já agora, por que não uns robôs humanoides autónomos para fazer todas as tarefas (ainda) manuais?… No limite, este cenário (plena IA) pode até ser possível (num futuro mais ou menos longínquo), mas quanto maior o avanço da inteligência artificial, maior o risco de tornar a inteligência natural “dispensável”!… Quiçá, o próprio ser humano se torne “descartável”!…

O “caminho para a IA” é, certamente, bastante atrativo… apela à “natural preguiça” do ser humano moderno!… mas quanto maior o avanço da inteligência artificial, maior o risco de tornar a inteligência natural “dispensável”!… Quiçá, o próprio ser humano se torne “descartável”!…

A inovação tecnológica é um processo evolutivo, dependente do conhecimento. O conceito de “Inovação” não se deve resumir apenas à Inovação Tecnológica. Inovação aplica-se a todos os aspetos relacionados com o desenvolvimento e aplicação do conhecimento (científico). O “Conhecimento” é a base para o desenvolvimento de novas tecnologias que vão potenciar o conhecimento científico que, por sua vez, cria as condições para melhorar as tecnologias pré-existentes. Sucessivamente, o conhecimento desenvolve as tecnologias… e as tecnologias desenvolvem o conhecimento.

INOVAÇÃO AO NÍVEL DOS POMARES

A criação de conhecimento (e a sua divulgação) no setor agrícola, outrora ligada a instituições públicas de investigação/experimentação e de divulgação, é uma “miragem” nos dias de hoje. A investigação aplicada ou experimentação em campo está sujeita a condicionalismos vários que dificultam a captação de financiamentos com a celeridade e a consistência necessárias, em particular nas culturas plurianuais, tornando lenta a intensificação e a modernização das estruturas produtivas (pomares, vinhas e olivais). Em contrapartida, a investigação (criação de conhecimento) pelo setor privado centrou-se no desenvolvimento de produtos e serviços “vendáveis”, tornando a sua divulgação muito rápida e efetuada diretamente pelos distribuidores autorizados.

Este caminho a “duas velocidades” levou a uma situação algo paradoxal…

Qual a vantagem de aplicar produtos e serviços “avançados” (mais caros) em pomares estruturalmente “atrasados” (pouco eficientes)?… Basta ver-se o (ainda) elevado número de pomares de macieira e, principalmente, pereira com baixas densidades, com mais de 40-50 anos e conduzidos em formas “volumosas” (vaso, eixo modificado, etc.).

Apenas nas últimas 3 décadas se começaram a impor os sistemas de maior densidade e formas “em superfície” (predominantemente o eixo vertical), formando sebes contínuas, altas e relativamente estreitas (“muros fruteiros”), muito por iniciativa dos técnicos e das organizações de produtores. Nos últimos anos, os pomares em eixo e outras formas ditas “planares” ou de baixo volume (duplo-eixo, multi-eixo, etc.), com altas ou muito altas densidades (> 3000-3500 árvores/ha), têm sido divulgados como sistemas “altamente tecnológicos” e “eficientes”.

É neste contexto que o “conhecimento” se torna um fator crítico… Pomares com maior intensificação cultural estão associados a custos mais elevados e qualquer erro que se cometa na sua planificação, tarde ou nunca poderá ser corrigido ou, mesmo, mitigado. Torna-se necessário, por isso, consciencializar os fruticultores portugueses que não basta “comprar” inovações tecnológicas e o conhecimento inerente ao seu uso, é preciso modernizar os pomares para aplicar ou adaptar as novas tecnologias ou tendências, sem cometer erros (mais ou menos) graves que possam comprometer o sucesso do investimento.

Pomares com maior intensificação cultural estão associados a custos mais elevados e qualquer erro que se cometa na sua planificação, tarde ou nunca poderá ser corrigido ou, mesmo, mitigado… é preciso modernizar os pomares para aplicar ou adaptar as novas tecnologias ou tendências, sem cometer erros (mais ou menos) graves que possam comprometer o sucesso do investimento.

ONDE SURGEM OS PRINCIPAIS ERROS:

Erros ao nível da implantação… desde logo a escolha do local, da espécie, da cultivar e do porta-enxerto… atualmente, quantos produtores fazem (ou mandam fazer) um estudo prévio do perfil do solo (em profundidade) antes da instalação dos pomares, vinhas ou olivais? O estudo do perfil é fundamental para tomar decisões ao nível das técnicas de preparação do terreno, ao nível do potencial de crescimento da cultivar, ao nível da escolha do porta-enxerto adequado a esse potencial, etc… E a escolha da espécie e cultivar?… faz-se em função do mercado (atual e previsão para o futuro)?… ou simplesmente seguindo o que se faz na região… ou a tradição familiar… ou as modas?…

Erros ao nível da gestão produtiva… quantos fruticultores contam os frutos de algumas árvores para terem uma estimativa da carga do pomar?… Se não contam os frutos, como podem saber se é necessário mondar ou se as mondas (químicas) efetuadas foram eficazes? E será que sabem qual é a carga da árvore adequada para obter frutos de um determinado calibre?… E quando, eventualmente, monitorizem o crescimento do fruto, será que têm uma referência que indique se o ritmo de crescimento é o adequado?…

Formas em volume (tridimensionais) de baixa a média densidade. Formas abertas características dos atuais pomares de prunóideas, de oliveira e outras fruteiras com elevado vigor ou com dificuldade em manter um tronco vertical e dominante

Exceções à regra: formas em superfície (sebes altas e estreitas) em algumas espécies (ameixeira, oliveira, amendoeira) uma realidade nas últimas décadas

UM CASO PARADIGMÁTICO. O EIXO CENTRAL “PORTUGUÊS”

No início da década de 1970, instalou-se em Portugal, sob orientação do Eng. Tomás Ferreira, um pomar de macieiras com mais de 3000 plantas/ha, conduzido em eixo vertical, formado a partir de varetas ramificadas (“antecipadas”) resultantes da enxertia no local definitivo, realizada a 40 cm de altura no porta-enxerto M 106. À época, quiçá fosse o pomar em condições práticas (não experimental) tecnicamente mais avançado da europa ou, mesmo, do mundo. De referir que os trabalhos do Dr. Lespinase, em França, sobre o eixo central na macieira (e em contexto experimental) só foram publicados na segunda metade da referida década.

Como “santos de casa não fazem milagres”, foram necessárias várias décadas para que os pomares de alta densidade, com varetas ramificadas, com zonas de enxertias localizadas acima do nível do solo e com porta-enxertos ananicantes ou semiananicantes, se tornassem uma realidade… por “importação” (do conhecimento) de outros países.

Em uma das suas últimas publicações (1969), já o professor Vieira da Natividade referia a característica semiananicante do M.106, que considerava adequado aos pomares “intensivos” com densidades superiores a 2000 árvores/ha. No entanto, o M.106 caiu “em desgraça”, primeiramente por ser “vigoroso” (embora fosse o enterramento da enxertia a provocar o afrancamento e o excesso de vigor) e depois por questões sanitárias ao nível do colo e das raízes (principalmente devidas a “más” práticas viveiristas).

Na transição das décadas de 1970 para 1980, os estudos de doutoramento dos professores Doutores Rogério de Castro (ISA) e Alberto Santos (UTAD) já indicavam a importância das técnicas de viveiro na formação das árvores (R. Castro) e da altura da enxertia no controlo do vigor da árvore (A. Santos). Como “santos de casa não fazem milagres”, foram necessárias várias décadas para que os pomares de alta densidade, com varetas ramificadas, com zonas de enxertias localizadas acima do nível do solo e com porta-enxertos ananicantes ou semiananicantes, se tornassem uma realidade… por “importação” (do conhecimento) de outros países.

→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de maio 2026.