Há algo de muito errado quando uma fibra milenar, natural e renovável, se transforma num problema económico para quem a produz.

A lã, derivada da pelagem da ovelha, com utilizações tão diversas, apesar de continuar a ser um material tecnicamente relevante, está hoje no centro de uma contradição que deve preocupar decisores políticos, associações e indústria, já que o ato de produzir lã gera prejuízo.

Uma baixa valorização

Desde a II Guerra Mundial que a importância da lã decresce. Soma-se a isto o envelhecimento dos produtores e a renovação geracional é quase inexistente. Em Portugal os custos de tosquia superam largamente o valor de venda da lã. Os produtores pagam cerca de 1,60 € por animal para tosquiar e recebem pouco mais de 20 cêntimos pela lã. Um prejuízo anunciado. A valorização é tão baixa que muitos criadores nem conseguem escoar a matéria-prima. A Serra da Estrela, com centros como Manteigas e Covilhã, mantém tradição no processamento, com exemplos como a Ecolã, apesar de não ser suficiente para inverter o cenário.

Paulo Gomes – CEO, Grupo Voz do Campo Editora

Mas há, no entanto, alguma esperança, já que Portugal retoma as exportações de lã para a China, o maior produtor mundial, com cerca de 350 milhões de toneladas por ano, sendo também o maior consumidor e processador de têxteis, com uma indústria que necessita de grandes volumes de matéria-prima para satisfazer tanto o mercado interno como o internacional. Após quatro anos de interrupção comercial, o nosso país retomou em 2025 as exportações de lã nacional para este grande país, o que representa um avanço significativo para o setor ovino e para a fileira da lã.

Mas há projetos interessantes

Apesar disso, há projetos que devolvem algum fôlego à fileira. O “Salva a Lã Portuguesa” que aposta na preservação das raças e em processos manuais. O CIRCWOOL a promover a circularidade da lã para um futuro regenerativo. O “Fertiwool”, do Instituto Politécnico de Portalegre, que explora novas formas de valorização. A Burel Factory que mostra como o conhecimento industrial pode gerar valor acrescentado. O edredão de lã de borrego “Lãmb” da empresa Pasto Alentejano em Sousel. E lá fora na Estónia, um projeto interessante, o Woola, para demonstrar que a lã pode substituir o plástico em embalagens sustentáveis.

Em jeito de rodapé, convém acrescentar que subsiste a convicção de que esta fibra natural, biodegradável e renovável tem futuro. O problema parece, no entanto, ser cultural e de hábitos de consumo que importa enfrentar, temos por isso, um grande desafio pela frente que é incentivar a utilização de produtos de lã em detrimento dos sintéticos, mas temos de estar cientes também de que o futuro não se constrói sozinho. Exige políticas públicas, valorização justa ao produtor e uma visão estratégica para que a lã deixe de ser um problema e volte a ser uma oportunidade.

Editorial da edição de fevereiro 2026 da Revista Voz do Campo.

Fevereiro 2026

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