Autoria: Fernando Mata¹,²,*, Susana Campos², Meirielly Jesus², Joana Santos²
¹ Estação Zootécnica Nacional, Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV, I.P.), Quinta da Fonte Boa, 2005-424 Vale de Santarém, Portugal.
² Centro de Investigação e Desenvolvimento em Sistemas Agroalimentares e Sustentabilidade (CISAS), Instituto Politécnico de Viana do Castelo, 4900-347 Viana do Castelo, Portugal.
*Autor correspondente: fernando.mata@iniav.pt
Uma análise empírica das prioridades dos cidadãos e da Política Agrícola Comum
A agricultura europeia atravessa um período de profunda transformação. Já não se espera apenas que os agricultores produzam alimentos. Hoje, são também vistos como guardiões do ambiente, agentes de desenvolvimento rural e peças-chave na resposta aos desafios climáticos e sociais.
MAS AFINAL, O QUE ESPERAM OS CIDADÃOS EUROPEUS DOS AGRICULTORES?
Um estudo recente (Mata et al., 2026), baseado em mais de 21 mil entrevistas realizadas pelo “Eurobarômetro” em todos os Estados-Membros da União Europeia, permite traçar um retrato detalhado dessas expectativas. E a principal conclusão é clara: não existe uma visão única, as prioridades variam consoante o perfil de cada cidadão.
Produzir bem continua a ser central
Entre todas as responsabilidades atribuídas aos agricultores, destaca-se uma: “fornecer alimentos seguros, saudáveis e sustentáveis”. Esta surge como a prioridade mais consensual entre os europeus. Mas a agricultura é hoje vista como muito mais do que produção. Outras funções também ganham relevo:
– “proteger o ambiente e combater as alterações climáticas”;
– “garantir um abastecimento alimentar estável”;
– “promover o emprego e o desenvolvimento rural”;
– “assegurar o bem-estar dos animais de produção”;
– “contribuir para a qualidade de vida nas zonas rurais”.
Estamos, assim, perante uma visão alargada da agricultura, alinhada com os princípios da sustentabilidade.

DIFERENTES CIDADÃOS, DIFERENTES PRIORIDADES
Um dos aspetos mais interessantes do estudo é a identificação de diferenças claras entre grupos da população.
Género: As mulheres tendem a valorizar mais a proteção ambiental, o bem-estar animal e a qualidade dos alimentos. Já os homens dão maior importância à dimensão económica, como a criação de emprego e a estabilidade do abastecimento alimentar.
Idade: Os jovens destacam a necessidade de criar oportunidades de trabalho no meio rural, um tema crítico face ao despovoamento. Por sua vez, os mais velhos mostram maior preocupação com a segurança e a qualidade dos alimentos.
Educação e classe social: Os cidadãos com níveis de escolaridade e rendimentos mais elevados tendem a valorizar mais a sustentabilidade, o ambiente e o bem-estar animal. Em contraste, os grupos com menos recursos focam-se mais na criação de emprego e no dinamismo económico das zonas rurais.
Orientação política: As preferências também refletem posicionamentos ideológicos. Indivíduos mais à direita tendem a priorizar crescimento económico e produção, enquanto cidadãos mais à esquerda atribuem maior importância às questões ambientais.
Local de residência: Quem vive em áreas rurais tende a valorizar mais o emprego e o desenvolvimento local. Já os residentes em zonas urbanas destacam a qualidade dos alimentos e a sustentabilidade ambiental.
Um equilíbrio cada vez mais exigente
Os resultados mostram que os agricultores são chamados a desempenhar múltiplas funções, muitas vezes com objetivos que podem entrar em tensão. Produzir mais, mas com menos impacto ambiental (…).
→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de junho 2026.
Referências
Mata, F., Campos, S., Jesus, M., Santos, J. (2026). What Do Europeans Expect from Farmers? An Empirical Analysis of Citizens’ Priorities and the Common Agricultural Policy. Sci, 8(4): 85. https://doi.org/10.3390/sci8040085
Nota: Imagens meramente ilustrativas (arquivo VC)

