Os nemátodes-das-galhas radiculares (NGR) são uma ameaça às culturas hortícolas em todo o mundo. O fungo Purpureocillium lilacinum (Thom) Luangsa-ard, Houbraken, Hywel-Jones & Samson (=Paecilomyces lilacinus) reduz a infeção por NGR, pelo que a sua aplicação é vista como uma promissora alternativa aos nematodicidas de síntese química.

O setor da horticultura é de vital importância para a economia, segurança alimentar e saúde das populações. Abrange a produção de frutas, legumes, verduras, flores e plantas ornamentais, contribuindo significativamente para a diversidade e qualidade de alimentos. A horticultura assegura o fornecimento de alimentos frescos e nutritivos, que são essenciais para uma dieta equilibrada e saudável. Este setor é ainda crucial para a geração de empregos, especialmente em zonas rurais, e impulsiona a economia local e global, promovendo práticas agrícolas sustentáveis, inovação tecnológica e o uso eficiente dos recursos naturais.

Segundo o Observatório de Preços para o setor Agroalimentar, a fileira dos produtos hortícolas representa um valor de produção de 1677 M €, o que equivale a 15,6% de produção agrícola nacional, numa área de 63 095 hectares (observatorioagroalimentar.gov.pt). Neste setor, destaca-se a fileira do tomate para consumo em fresco, como um dos produtos hortícolas com maior produção a nível nacional. Segundo o relatório de estatísticas agrícolas do Instituto Nacional de Estatística (INE, 2023), a produção de tomate em estufa em 2023 foi de 128 042 toneladas, abrangendo a área de 1 285 hectares, evidenciando a elevada importância económica desta cultura.

O tomateiro

O tomateiro é uma planta herbácea, perene, mas cultivada como anual. O seu desenvolvimento vegetativo ocorre em simultâneo com o desenvolvimento reprodutivo, durante a maior parte do ciclo vegetativo. Embora não necessite de condições ambientais específicas para iniciar a floração, é favorecida por períodos com temperaturas diárias superiores a 10°C, uma vez que é uma cultura de estação quente e sensível a geadas. A temperatura ótima de desenvolvimento está entre os 18°C e 24°C, que favorece o amadurecimento dos frutos. No solo, o crescimento das raízes é máximo entre 15°C e 19°C (Almeida, 2014). A produção desta cultura é, no entanto, desafiante, uma vez que o combate eficaz de pragas e doenças é cada vez mais exigente e agravado pelas alterações climáticas.

Diversas pragas e doenças podem estar associadas a esta cultura, causando a redução da quantidade e da qualidade dos frutos. Entre as mais prejudiciais estão os nemátodes parasitas de plantas do género Meloidogyne (nemátodes-das-galhas-radiculares, NGR). A infeção do sistema radicular por NGR, nomeadamente pela espécie M. incognita, frequentemente associada a danos na cultura do tomateiro, pode levar a perdas de produção, em estufa, entre os 25-30% (Wallia, 2021). A extensão dos danos varia de acordo com a virulência da população de NGR e a cultivar de tomateiro (Greco & Sassaneli, 2021).

Nemátodes-das-galhas-radiculares (NGR), Meloidogyne spp.

Os NGR alimentam-se e desenvolvem-se dentro dos tecidos radiculares, prejudicando significativamente a absorção de água e nutrientes pela planta, pondo em causa o seu crescimento e a produção.

O ciclo de vida de Meloidogyne spp. contempla quatro estádios juvenis e o estádio adulto. As fêmeas colocam os ovos numa massa gelatinosa, geralmente mantida à superfície da raiz. Cada fêmea pode colocar centenas a milhares de ovos. No ovo ocorrem dois estádios, o primeiro estádio juvenil (J1) e o segundo estádio (J2). O J2 (estádio infetivo) eclode e irá penetrar na raiz da mesma planta ou de uma planta vizinha. O estilete, estrutura rígida semelhante a uma agulha hipodérmica, localizada na parte anterior do nemátode, é fundamental no processo de penetração e alimentação. Uma vez dentro da raiz, o J2 migra para a região central onde se torna sedentário e sofre várias mudas até atingir o estádio adulto. O desenvolvimento dos NGR é acompanhado pelo aumento de tamanho das células da raiz de onde se alimentam (células gigantes) e pela multiplicação das células que rodeiam o nemátode e que se traduz na formação de galhas (Figura 1).

A espécie de NGR mais frequente e identificada em Portugal é M. incognita, mas, até ao momento e que se conheça, já foi reportada a presença das espécies M. arenaria, M. chitwoodi, M. enterolobii, M. hapla, M. hispanica, M. javanica, M. luci, M. lusitanica e M. naasi. Comumente, os sistemas radiculares de plantas infetadas por NGR apresentam típicas deformações sob a forma de galhas que podem ser visíveis a olho nu (Figura 1). Para além disso, podem apresentar menor crescimento, amarelecimento das folhas e murchidão (Figura 2).

O processo contínuo de alimentação dos NGR afeta o sistema radicular das plantas e reduz a sua capacidade de absorver água e nutrientes, criando uma oportunidade para que outros organismos patogénicos, nomeadamente fungos do solo como Fusarium spp. e Verticillium spp. invadam as raízes, enfraquecendo ainda mais a planta (Almeida, 2014).

Estratégias para a gestão de NGR

Convencionalmente, um dos métodos mais comuns para reduzir as populações de NGR é a fumigação do solo com nematodicidas de síntese química, mas preocupações ambientais e de saúde humana têm levado à redução do uso de produtos fitofarmacêuticos, nos últimos anos. Em causa está uma agricultura mais ‘amiga do ambiente’, com menor risco de contaminação dos solos e dos canais de água e de menor risco para o agricultor e o consumidor. Ao ser promovida a redução da utilização de produtos fitofarmacêuticos torna-se urgente encontrar produtos alternativos para a proteção das culturas, nomeadamente através da utilização de organismos vivos para diminuir a presença de nemátodes fitoparasitas. As principais vantagens dos produtos de base biológica, comparativamente à utilização de produtos de síntese química são: (a) a ausência de resíduos nocivos, e (b) a natureza ‘ecológica’. Contudo, atualmente, existem evidências científicas que indicam que estas vantagens nem sempre são alcançadas. Atualmente, alguns dos inconvenientes são: (a) elevado custo de produção, porque envolve muitas etapas como o isolamento em cultura, identificação e caracterização, desenvolvimento de uma formulação adequada, produção em massa, testes de eficácia do produto e inspeção da estabilidade de armazenamento; (b) especificidade muito elevada contra a doença e o agente patogénico alvo que pode exigir o uso de várias táticas de proteção biológica; (c) necessidade de períodos mais longos para atingir os resultados; (d) necessidade de mais do que uma aplicação do produto; e (e) eficácia variável devido às influências de vários fatores bióticos e abióticos, porque se trata da aplicação de organismos vivos (Amaro, 2003) (…).

→ Leia este e outros artigos completos da reportagem sobre o tomate na Revista Voz do Campo  edição de abril 2025, disponível no formato impresso e digital.

Autoria: Sandra Castro¹, Elsa Borges da Silva², Francy Ceballos-Burgos³, Luís Fonseca³, Ivânia Esteves³, Carla Maleita³,4

¹ Alltech Crop Science Portugal
² Universidade de Lisboa, Forest Research Centre, Laboratório Associado TERRA, Instituto Superior de Agronomia, Departamento de Ciências e Engenharia de Biossistemas
³ Universidade de Coimbra, Centre for Functional Ecology – Science for People & the Planet (CFE), Laboratório Associado TERRA
4 Universidade de Coimbra, Chemical Engineering and Renewable Resources for Sustainability (CERES)

Bibliografia: Consultar artigo


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