A Nanta Portugal organizou mais uma edição das suas jornadas dedicadas à cunicultura, focadas na inovação e eficiência na produção, no impacto da inteligência artificial no setor, no novo regulamento europeu 2024/1229 sobre contaminações cruzadas e nas soluções para enfrentar os desafios que se avizinham. O evento teve lugar no Forum Braga, no decorrer da 57ª AGRO.
Luís Ribeiro, diretor comercial da Nanta Portugal, destacou a importância da realização destas Jornadas como forma de manter o setor dinâmico: “A cunicultura é um setor que a Nanta aposta desde há muitos anos e é no qual que nós nos continuamos a rever enquanto um setor de investimento. Assumimos o compromisso de retomar as nossas jornadas no ano passado e de as fazer anualmente, para manter vivo aquilo que é a união dos produtores de coelhos”.
Apesar do compromisso da Nanta, os desafios continuam a marcar o setor, nomeadamente a redução do consumo de carne de coelho.
“O consumo da carne de coelho tem uma tendência de decréscimo, mais acentuada em Espanha do que em Portugal. Essa tradição do consumo de carne de coelho foi-se perdendo”, caracteriza Luís Ribeiro, referindo-se à mudança de hábitos e ao afastamento das novas gerações da tradição rural. O papel da Nanta é essencialmente técnico, nas áreas de nutrição e acompanhamento da produção, mas não deixa de ter um papel agregador: “O que fazemos é que tentamos que [os produtores] se juntem enquanto setor e tentamos passar (…) o máximo de informação de todos os regulamentos e normativas que vão saindo da União Europeia e que os afetam”.
Já o Dr. André Carvalho, médico veterinário da Nanta Portugal, reforçou a urgência de uma mudança de paradigma, nomeadamente na forma como a carne de coelho é apresentada e percecionada no mercado.
“Culturalmente, poderíamos ter aqui uma perspetiva de transformação (…) recuperar os “valores gastronómicos” da carne de coelho feita pelos nossos avós e transmiti-los às novas gerações (…). Ainda se apresenta o coelho com cabeça, o que não faz sentido. Temos de mudar, usar muito mais o coelho transformado (…) de modo que as pessoas cheguem ao supermercado, comprem as cuvetes e usem só as partes que efetivamente gostam”, considera o médico veterinário. Para além disso, outro obstáculo destacado é o aumento da perceção do coelho como animal de estimação, o que influencia negativamente o consumo:
“Temos também aqui um inconveniente muito grande, que é a entrada em casa do coelho, não “para a panela”, mas como pet, como coelho de estimação, sendo uma das principais dificuldades na promoção e aumento do consumo”, lamenta. O Dr. André Carvalho alertou ainda para os desafios logísticos da fileira, que afetam diretamente os produtores do norte do país: “Atualmente existem dois matadouros a funcionar em território nacional, um em Torres Vedras e outro em Bombarral. Apesar de grande parte do consumo estar centralizado nas grandes cidades, 50% da produção nacional está localizada em Trás-os-Montes, o que obriga a viagens longas e consequentemente cuidados redobrados ao nível do bem-estar animal no transporte dos animais para o matadouro. Infelizmente já não existem matadouros a laborar no Norte do país”. A nível europeu, o cenário também não é animador, face à crescente preferência por outras carnes: “Temos uma Europa extremamente rica, preocupada com questões éticas e de bem-estar animal, e que deixa de lado o coelho, como parte da sua gastronomia, preferindo outras carnes, nomeadamente frango ou porco”.
Por fim, ficou evidente o grau de complexidade da produção cunícola em comparação com outras produções pecuárias.
“A cunicultura utiliza um sistema de maneio complexo, quando comparado com outras espécies. (…) Quando a “máquina produtiva” começa a mover-se, com uma estrutura muito pesada, obriga a regras de biossegurança apertadas. Na cunicultura temos todo o sistema produtivo, com coelhas em produção, as futuras reprodutoras, bem como as fases de crescimento, vulgo engordas, na mesma exploração. A arte de produzir coelhos é extremamente difícil. O que os cunicultores fazem é notável!”, remata o médico veterinário.
As jornadas contaram com cerca de 30 produtores, representando aproximadamente cerca de 40% do mercado nacional. Para além da partilha de conhecimentos, foi também uma excelente oportunidade para o esclarecimento de dúvidas, principalmente devido à implementação do novo Regulamento 2024/1229, relativo às contaminações cruzadas, que entra em vigor a 20 de maio de 2025 e que representará mais um desafio para os fabricantes de alimentos compostos mas também para os produtores de coelhos.
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Veja aqui alguns momentos:
Assista à entrevista com Luís Ribeiro, diretor comercial da Nanta Portugal:



