Autoria: Paula Sá-Pereira 1,2
1 Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P.
Laboratório Nacional de Referência para a Sanidade Vegetal/CNCACSA
2 Green-IT, ITQB, Universidade NOVA Oeiras, Portugal
A Xylella fastidiosa representa uma das ameaças fitossanitárias mais críticas para a agricultura europeia, responsável por perdas económicas substanciais e pela destruição massiva de oliveiras no Mediterrâneo. Nos últimos anos, a investigação científica tem avançado significativamente, revelando genes de resistência em espécies agrícolas, identificando cultivares tolerantes, explorando microrganismos benéficos, compostos naturais e bacteriófagos, e testando novas tecnologias de deteção e monitorização. Paralelamente, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) tem atualizado a lista de hospedeiros e estirpes, impondo a adaptação constante das medidas de vigilância. O futuro aponta para a integração de biotecnologia, inteligência artificial, drones e agricultura de precisão, numa abordagem multifacetada que permitirá reduzir o impacto da doença e proteger a agricultura europeia.
A deteção da Xylella fastidiosa em Apúlia (Itália), em 2013, marcou o início de uma crise sem precedentes para a olivicultura mediterrânica. Desde então, a bactéria foi detetada em França, Espanha e Portugal, evidenciando uma grande capacidade de adaptação. É transmitida sobretudo pela cigarrinha-vulgar Philaenus spumarius, no seu processo de alimentação. A bactéria coloniza o xilema das plantas, onde forma biofilmes que comprometem o transporte de água e nutrientes (Fig. 1). Os prejuízos económicos são alarmantes: apenas para Itália estimam-se 5,2 mil milhões de euros em 50 anos, podendo atingir globalmente 5,5 mil milhões por ano na Europa [4]. A ausência de tratamento curativo exige soluções inovadoras, articuladas entre genética, biocontrolo, práticas agrícolas e políticas públicas.
Nesse contexto, a genética tem sido uma das áreas mais promissoras. Estudos transcriptómicos comparativos identificaram 18 genes conservados associados à resistência, incluindo genes que reforçam a parede celular, regulam o crosstalk hormonal e produzem compostos antimicrobianos. Entre eles, BAK1, WRKY33 e WRKY40 destacam-se como reguladores centrais da imunidade vegetal [1]. No campo, variedades de oliveira como Leccino e Favolosa® (FS17) mostraram tolerância à estirpe ST53, exibindo sintomas mais leves e cargas bacterianas muito inferiores às de cultivares suscetíveis. A própria EFSA confirmou, em 2024, 89 novos registos de tolerância ou resistência em oliveira, reforçando a importância da diversidade genética [3].
Contudo, a genética não é a única via de defesa. O biocontrolo surge como complemento essencial, explorando a ação de microrganismos como Paraburkholderia phytofirmans ou Curtobacterium flaccumfaciens, capazes de reduzir a severidade da infeção. Bacteriófagos como o Mate 2 têm mostrado atividade lítica contra estirpes de X. fastidiosa, enquanto compostos naturais – incluindo polifenóis, azadiractina A e óleos essenciais de sândalo e patchouli – demonstraram eficácia in vitro. Em paralelo, péptidos antimicrobianos como a cecropina B revelaram potencial em videiras geneticamente modificadas [4].
Apesar destes progressos, a gestão integrada de vetores continua a ser a principal medida no terreno. A eliminação de vegetação espontânea que serve de habitat às ninfas, aliada à utilização de barreiras físicas como o caulino, tem demonstrado impacto na redução das populações de cigarrinhas. A poda, além de regenerar plantas, auxilia no controlo de sintomas. O recurso ao controlo biológico, com predadores como Zelus renardii ou parasitoides de ovos (Ooctonus vulgatus, Gonatocerus spp.), tem permitido reduções expressivas das populações de vetores, enquanto fungos entomopatogénicos como Beauveria bassiana se revelam eficazes em ensaios de campo [4].
O uso de inseticidas permanece restrito a situações críticas, privilegiando substâncias seletivas como o acetamipride, para evitar resistências e proteger auxiliares naturais [4]. No plano regulamentar, a União Europeia tem reforçado a resposta: o Regulamento de Execução (UE) 2024/2507 definiu novas obrigações de erradicação e contenção, enquanto em Portugal a Portaria n.º 219/2025 estabeleceu prospeções obrigatórias em plantas e insetos, associadas à eliminação controlada de hospedeiros infetados [6].
No panorama europeu, a vigilância coordenada tem sido determinante. A atualização mais recente da EFSA (dezembro de 2024) elevou para 713 o número de hospedeiros confirmados de Xylella spp., abrangendo 210 géneros e 71 famílias. Em Portugal, três novos hospedeiros foram identificados – Dittrichia sp., Erica sp. e Quercus coccifera – o que reforça a necessidade de ampliar a monitorização e ajustar continuamente as medidas de gestão [3].
Face a uma doença tão complexa e multifacetada, o futuro dependerá da integração de várias abordagens e da aposta na inovação. A utilização de tecnologias ómicas permitirá caracterizar genes de resistência e microrganismos aliados [1][4], enquanto ferramentas de edição genética como o CRISPR/Cas9 oferecem a possibilidade de desenvolver cultivares resistentes com maior rapidez [1]. Por sua vez, drones equipados com sensores hiperespetrais já provaram ser eficazes na deteção precoce de sintomas não visíveis [2], e, em combinação com inteligência artificial, podem antecipar padrões de infeção e apoiar a tomada de decisão em tempo real. Estes dados, quando integrados em plataformas de agricultura de precisão, permitirão aplicar medidas localizadas, reduzindo custos e impactos ambientais [2][4].
Assim, a luta contra a Xylella fastidiosa só poderá ser ganha através de uma abordagem colaborativa, que agregue investigação, políticas públicas e práticas agrícolas. Embora a cura definitiva ainda não exista, os avanços registados nos últimos anos mostram que a ciência está cada vez mais próxima de oferecer soluções eficazes e sustentáveis para salvaguardar a agricultura e o património natural da Europa.
Referências
1. Balan, A.S., Tranchina, G., Bonanno, F., Caruso, T., Marra, F.P., Di Vaio, C., & Marchese, A. (2025). A systems biology framework integrating cross-species transcriptomics and PPI networks for Xylella fastidiosa resistance gene identification. BMC Plant Biology, 25(1), 1062.
2. D’Addabbo, A., Belmonte, A., Bovenga, F., Lovergine, F., Refice, A., Matarrese, R., Gallo, A., Mita, G., Kubaa, R. A., Boscia, D., & Barbieri, V. (2024). Detection of olive trees affected by Xylella fastidiosa from hyperspectral and thermal UAV data. International Geoscience and Remote Sensing Symposium (IGARSS), 10, 212–214.
3. EFSA (European Food Safety Authority), Cavalieri, V., Fasanelli, E., Furnari, G., Gibin, D., Gutierrez Linares, A., La Notte, P., Pasinato, L., & Stancanelli, G. (2025). Update of the Xylella spp. host plant database – Systematic literature search up to 31 December 2024. EFSA Journal, 23(7), e9563.
4. Mourou, M., Incampo, G., Carlucci, M., Salamone, D., Pollastro, S., Faretra, F., & Nigro, F. (2025). Insight into biological strategies and main challenges to control the phytopathogenic bacterium Xylella fastidiosa. Frontiers in Plant Science, 16, 1608687.
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