A rega deficitária tem-se afirmado, nos tempos mais recentes, como prática comum na viticultura nacional. Para além da vantagem de melhor gestão da água utilizada e do consequente aumento da eficiência do uso desta, verifica-se também uma alteração do perfil de aromas que, em muitas castas, melhora a qualidade dos vinhos produzidos.

A regulação destas alterações foi estudada, a nível molecular, na casta Touriga Nacional, uma casta originária da região do Dão, cultivada em todo o país e com potencial para produzir vinhos encorpados e complexos, que podem atingir elevada qualidade. O estudo decorreu na Herdade do Esporão, em Reguengos de Monsaraz, Alentejo (Figura 1), no âmbito de um projeto financiado pela UE (FP7-INNOVINE-KBBE-2012-6).

Foram aplicados dois tratamentos de rega deficitária: o normalmente utilizado pela empresa, que corresponde a 36 % da evapotranspiração da cultura (ETc), ou seja, da água perdida pelo solo e pelas plantas, e um tratamento de défice hídrico mais acentuado, que apenas repõe 24 % da ETc. Os bagos foram seguidos durante o ciclo de crescimento, por três anos consecutivos. Foram colhidas amostras da película dos bagos nas fases de crescimento ‘bago de ervilha’, ‘pintor’ e ‘maturação enológica’ (Figura 2). Essas amostras foram estudadas para obter o perfil de expressão génica, que indica quais as vias metabólicas que estão a ser ativadas ou reprimidas e quais os compostos que estão a ser produzidos em cada momento. Portanto, no final obteve-se uma visão global das alterações sofridas em várias vias metabólicas chave que controlam o desenvolvimento dos bagos e a acumulação de compostos aromáticos, que, ao interagirem entre si, contribuem de modo decisivo para a qualidade das uvas.

Regulação da expressão génica

A análise das películas dos bagos revelou que, ao longo do desenvolvimento, muitos genes se tornaram mais ativos quando as videiras foram submetidas a condições de rega mais deficitária. Destes genes, os que foram considerados como desempenhando um papel mais relevante para o perfil de qualidade das uvas nestas condições, são um modulador de resposta à hormona vegetal auxina e um fator que regula a síntese de antocianinas. Esta síntese de antocianinas é promovida pela hormona ácido abcísico (ABA) em condições de falta de água. Para além do ABA e auxinas, outras hormonas como o ácido jasmónico (JA) e o ácido salicílico (SA) estão envolvidas na regulação do metabolismo das uvas em stress hídrico. Nestas condições, os níveis de JA aumentam, particularmente antes do pintor, correlacionando-se com concentrações elevadas de compostos aromáticos como monoterpenos à vindima (…).

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Autoria: Luísa C. Carvalho¹, Miguel J. N. Ramos, Ricardo Egipto, David Faísca-Silva, Carlos M. Lopes, Sara Amâncio
Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food Research Centre (LEAF), Laboratório Associado TERRA, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, 1349-017 Lisboa, Portugal.

¹ lcarvalho@iisa.ulisboa.pt

Agradecimentos:
Trabalho desenvolvido no âmbito do projeto europeu INNOVINE- FP7-KBBE-2012-6.

Referências: Consultar autor

 


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