O painel dedicado ao tema “Produção de Cereais: Que desafios técnicos se nos colocam?” reuniu especialistas nacionais e internacionais para refletir sobre o futuro da produção cerealífera, num contexto de crescente pressão demográfica, ambiental e económica. A sessão foi moderada por Carlos Parreira do Amaral, presidente da AOP – Associação de Orizicultores de Portugal.

Melhoramento genético no centro da resposta

Antonio Villarroel, diretor-geral da ANOVE – Asociación Nacional de Obtentores Vegetales, destacou o papel estratégico do melhoramento genético na resposta aos desafios globais. “Somos um setor relativamente pequeno, mas somos líderes em investigação na Europa, com uma percentagem de investimento em pesquisa que excede os 20% em muitos cultivos. Isto é mais do que o setor farmacêutico ou o setor aeronáutico”, afirma.

Antonio Villarroel – Diretor Geral da ANOVE

Nas palavras do diretor-geral, a ANOVE é uma associação com 20 anos que conta atualmente com 62 membros, representando em Espanha toda a indústria de melhoramento vegetal, desde grandes multinacionais a empresas familiares, cooperativas e centros públicos de investigação. O responsável sublinhou ainda a importância da inovação para garantir competitividade e sustentabilidade no setor.

Mais população, mais alimentos, menos recursos

Antonio Villarroel alerta para o cenário global que se desenha nas próximas décadas. “Estamos numa situação que a humanidade nunca enfrentou antes”, afirma, referindo-se ao crescimento da população mundial. “Segundo estimativas da FAO, vamos ter de aumentar a produção de alimentos em torno de 60 a 70%. Mas não temos mais terra para produzir (…)”.

O desafio, sublinha, é claro: “Temos uma equação de mais população, mais necessidade de alimentos, mas não temos mais terra. Então, temos de produzir mais com menos custos. E esta é uma equação difícil de resolver”.  Neste contexto, o diretor-geral da ANOVE reforçou que os cereais terão um papel fundamental na resposta alimentar global.

“As nossas variedades já não funcionam da mesma forma e as pragas e doenças começam a ser diferentes”

Alejandro Castilla, do IFAPA – Instituto Andaluz de Investigación y Formación Agraria, Pesquera, Alimentaria y de la Producción Ecológica, alertou para os efeitos concretos das alterações climáticas na produção cerealífera do sul de Espanha. “Eu venho do sul da Espanha, concretamente da Andaluzia, e nós já sabemos em que se traduzem as alterações climáticas”, afirma, sublinhando que o fenómeno vai muito além do simples aumento das temperaturas.

Da esquerda para a direita: Manuel Patanita (ESA de Beja), Alejandro Castilla (IFAPA), Ricardo Araque (Hisparroz), Cristina Cruz (FCUL), António Saraiva (InnovPlantProtect), Antonio Villarroel (Diretor-geral da ANOVE)

“As alterações climáticas não são apenas um aumento de temperatura ou uma variação na frequência das chuvas. Isso tem uma tradução direta: as nossas variedades já não funcionam da mesma forma e as pragas e doenças começam a ser diferentes”, explica.

O investigador destaca que, na Andaluzia, algumas pragas passaram a ter carácter permanente.

“Neste momento, temos zonas endémicas, ou seja, temos problemas com pragas todos os anos”, vinca. Como exemplo, referiu o mosquito do trigo (Mayetiola destructor), que “em 2016 praticamente acabou com 50% da produção de trigo na Andaluzia”.

InnovPlantProtect reforça papel da investigação na adaptação das culturas

António Saraiva, do InnovPlantProtect – Laboratório Colaborativo, destacou a importância da investigação para enfrentar os desafios emergentes na produção de cereais. “É com orgulho que hoje, ao fim de sete anos, temos 28 investigadores a trabalhar a tempo inteiro nesta temática, dos quais 12 doutorados, com experiência em culturas como o arroz, que tem sido central no nosso trabalho”, afirma, sublinhando o carácter multifuncional e internacional das equipas.

O responsável explicou que a investigação não se limita ao arroz, estando também envolvida em projetos relacionados com o milho.  “Estamos a finalizar uma candidatura ao Horizonte Europa focada em variedades melhoradas para resistir aos principais problemas do arroz (…) mas também com o milho, estamos envolvidos em algumas iniciativas, um projeto que está a terminar agora, e mais dois grupos operacionais que estão para arrancar sobre problemas emergentes da cultura”.

Para António Saraiva, a antecipação é fundamental: “Estes desafios não podem esperar muito tempo para serem discutidos ou resolvidos. Quanto mais cedo anteciparmos as questões, mais fáceis, eficazes e económicas serão as soluções”.

O investigador frisa ainda o impacto do clima.  “O que foi dito hoje é claro: a alteração climática é a maior ameaça que temos”, considera.

Sustentabilidade exige sistemas produtivos mais complexos

Cristina Cruz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), defendeu que a transição para sistemas mais sustentáveis exige uma abordagem integrada e baseada no funcionamento do solo. A investigadora sublinhou que é possível aumentar a eficiência no uso de recursos: “Podemos poupar 30% da fertilização e 30% da água utilizando uma rega subótima, porque temos um maior desenvolvimento radicular e plantas mais robustas para vários tipos de stress”.

Ainda assim, alerta que não existem soluções milagrosas. “Não podemos pensar que isto é um milagre. O nosso objetivo não é apenas usar produtos de origem biológica, biofertilizantes ou bioestimulantes. Tem de ser, termos sistemas produtivos mais complexos, com solos que sejam um fator de apoio à produção, e não apenas um substrato para sustentar a planta (…).  E esse trabalho passa por implementar técnicas, como a rotação de culturas, as culturas de cobertura, a introdução de biofertilizantes, a introdução de compostos orgânicos, etc., que vão permitir este melhor funcionamento do solo”, afirma

Para Cristina Cruz, a chave está no bom funcionamento do sistema planta–microbiologia–solo. “É esse melhor funcionamento que nos vai permitir ter sistemas mais eficientes e que geram biofertilização. Isso é que é a chave da sustentabilidade”.

A docente defende ainda que a inovação tecnológica e a sustentabilidade não são caminhos opostos. “Temos de associar as técnicas que temos ao nosso dispor — melhoramento de plantas, agricultura de precisão, biotecnologia — e integrá-las no contexto local. É daí que vamos tirar a mais-valia e alcançar uma intensificação sustentável da agricultura”.

Manuel Patanita, da ESA Beja – Escola Superior Agrária de Beja, destacou a necessidade de desenvolver variedades de cereais adaptadas às novas condições climáticas.

“Temos que ter claramente variedades adaptadas a estas situações, com plasticidade de ciclo e estabilidade produtiva. Sabemos que desde a década de 90 se atingiu o patamar produtivo do trigo, mas nas nossas condições climáticas não conseguimos atingir esse potencial. Precisamos, portanto, de variedades resilientes e estáveis”, afirma.

O docente sublinha ainda o papel do regadio: “Qualquer exploração agrícola com possibilidade de regadio, seja privado ou público, e que regue nas fases críticas das culturas, com um acréscimo de 500 a 1.000 m³ de água por hectare, consegue duplicar ou triplicar a produção, dependendo do ano”.

Manuel Patanita reforça, assim, a combinação entre genética e maneio hídrico como estratégia fundamental para enfrentar os desafios da produção cerealífera em Portugal.

Inovação genética no arroz: novas variedades para enfrentar desafios

Ricardo Araque, da Hisparroz – Instituto Hispânico del Arroz, destacou o esforço contínuo em inovação genética para responder às necessidades do setor.

“Todos os anos, temos mais de 300 a 400 linhas diferentes de variedades de arroz em estudo, e praticamente todos os anos obtemos novas variedades. Fazemos isto há mais de 50 anos e sempre fomos líderes em obter variedades (…). Em Espanha, praticamente sempre tivemos as melhores variedades do mercado, e temos desafios como Portugal, em que trabalhamos com muito entusiasmo (…)”, comenta.

O investigador sublinha a evolução das variedades convencionais para as tecnológicas: “Nos últimos anos vimos uma tendência clara para desenvolver variedades tecnológicas. Em colaboração com a BASF, estamos a criar variedades que resistem melhor às infestantes”.

Mais desenvolvimento em breve na Revista Voz do Campo.

Conteúdo relacionado:

40 anos de União Europeia em debate no Congresso do Milho: Balanço, contributos e desafios para o futuro


SUBSCREVA E RECEBA TODOS OS MESES A REVISTA VOZ DO CAMPO

→ SEJA ASSINANTE (clique aqui)

 

EDIÇÕES MAIS RECENTES:


Caso pretenda adquirir ou aceder integralmente a alguma edição em especial, envie-nos o seu pedido por e-mail: assinaturas@vozdocampo.pt

Periodicidade: 11 edições anuais na versão em papel ou digital

→ ASSINE AQUI A REVISTA VOZ DO CAMPO