À margem da Jornada Técnica da Batata, conversámos com Gonçalo Escudeiro, vice-presidente da FNOP – Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas e diretor executivo da TORRIBA – Organização de Produtores de Hortofrutícolas, sobre os desafios que marcam atualmente a fileira da batata. O responsável fala de uma campanha marcada pelo aumento dos custos de produção, pela redução dos preços pagos à produção, condições estas que estão a exercer a uma crescente pressão sobre os agricultores, mas defende que a agricultura portuguesa está hoje mais tecnológica, mais eficiente e preparada para competir nos mercados europeus. Para a TORRIBA, a batata de indústria assume um papel relevante dentro da sua atividade hortoindustrial.
ENTREVISTA A GONÇALO ESCUDEIRO
DIRETOR EXECUTIVO DA TORRIBA – ORGANIZAÇÃO DE PRODUTORES DE HORTOFRUTÍCOLAS
Estamos num evento dedicado à batata. Que importância têm iniciativas como esta para a fileira?
Esta é uma das iniciativas que dá razão de ser à Porbatata, porque a associação tem como objetivo reunir toda a fileira. Aqui, efetivamente, é a oportunidade de toda a fileira perceber como está a evolução do ano, quer ao nível das sementes, dos agroquímicos, dos adubos, da produção ou dos mercados.
São muito poucas as associações, a nível nacional, que conse guem reunir realmente toda uma fileira e todos os operadores. Isso reflete-se dentro da sala, mas também cá fora, quando as pessoas saem do evento e falam de negócios e de expectativas de mercados.
Tudo isto é um agrobusiness que se promove através desta associação extremamente importante para o setor.
“A situação está muito delicada e existe uma ansiedade muito grande do ponto de vista da produção”
Em que ponto está atualmente a cultura da batata?
A cultura da batata, como todas as culturas, vai tendo evoluções ao longo dos anos, com novas variedades, novas dinâmicas de mercado e novos produtos.
No entanto, temos duas realidades diferentes: a batata destinada ao mercado de fresco e a batata destinada ao mercado hortoindustrial, para as indústrias de fritos e congelados.
Neste momento, a batata atravessa um período particularmente sensível, porque houve, a nível europeu, um excesso de oferta que levou a uma redução dos preços de contratação da batata destinada ao mercado hortoindustrial
Depois disso, surgiu um problema gravíssimo: o aumento significativo dos fatores de produção, sobretudo combustíveis e adubos, associado à guerra no Médio Oriente e aos bloqueios no Canal de Ormuz.
Viemos de um ano de 2025 particularmente difícil do ponto de vista agronómico e de produção. Apesar de existir atualmente uma expectativa mais interessante ao nível produtivo, a base de contratação está mais baixa, num ano em que os custos de combustíveis e fertilizantes estão francamente mais altos.
A situação está muito delicada e existe uma ansiedade muito grande do ponto de vista da produção.
A batata continua a ser estratégica para a TORRIBA?
Sem dúvida. A batata é uma cultura extremamente importante dentro da TORRIBA.
A principal atividade hortoindustrial que temos é o tomate de indústria, seguido pela batata de indústria. Atualmente fazemos aproximadamente 2.500 hectares de tomate e cerca de 1.000 hectares de batata, envolvendo quarenta produtores.
A TORRIBA consegue abastecer os seus clientes, com batata diretamente do campo, durante grande parte do ano?
Sim, essa é uma das grandes mais valias que temos para ofe recer, resultante das características edafoclimáticas da região resultantes de uma forte influência atlântica.
Conseguimos começar a produzir em maio e ir até outubro. Dispondo ainda de um segundo período de produção de mais dois a três meses de batata estival, entre os meses de dezembro a fevereiro.
Talvez sejamos das regiões do sul da Europa que consegue ter produto fresco a sair do campo durante mais tempo.
“Está mais do que provado que as características de um produto fresco são diferentes das características de um produto conservado em armazém”
O cliente valoriza essa frescura?
Nos últimos anos temos vindo a sentir um aumento da procura, por parte do mercado, que encontra na produção nacional uma melhor qualidade e sabor. Está mais do que provado que as características de um produto fresco são diferentes das características de um produto conservado em armazém.
Isso é importante não só para o consumidor final, mas também para a própria indústria de transformação, tendo em conta o rendimento industrial. O facto de podermos começar a produzir em maio permite que as fábricas deixem de receber produto armazenado evitando assim a receber produto degradado pela longa conservação.
A questão da água continua a ser central para o setor?
O consumo de água está associado a um custo energético. Para colocar água no campo é preciso captá-la e transportá-la, e isso hoje tem um custo muito elevado.
Quando trabalhamos com empresários agrícolas que fazem contas todos os dias, ninguém tem interesse em ter custos supérfluos.
Existe uma preocupação ambiental, mas também económica. Sabemos que a água é um bem escasso e caro e que tem de ser bem gerido.
Hoje existe uma consciência muito grande, apoiada por tecno logias de agricultura de precisão, sondas e leituras diárias das necessidades e dos consumos que estamos a ter em termos da planta. Efetivamente há uma consciência de que realmente a água é um bem escasso e tem que ser bem gerido (…).


