Sabemos distinguir um frango do campo. Porque não conseguimos distinguir um Azeite de Olival Tradicional?

Há perguntas simples que expõem problemas complexos.

Hoje qualquer consumidor consegue distinguir um frango do campo de um frango de aviário. Consegue distinguir ovos de galinhas criadas ao ar livre, ovos de solo ou ovos biológicos. Em poucos segundos percebe que existem modos de produção diferentes e, por isso, faz escolhas diferentes.

Mas será que consegue fazer o mesmo quando compra azeite?

Consegue distinguir um azeite proveniente de um olival tradicional, com oliveiras centenárias, custos de produção elevados e forte ligação ao território, de um azeite produzido em sistemas altamente mecanizados e desenhados para competir em escala?

A resposta, na maioria dos casos, é não.

E aqui reside um dos maiores desafios do setor olivícola português: o consumidor não pode valorizar aquilo que não consegue identificar!

E esse talvez seja um dos maiores problemas estratégicos do setor olivícola português.

Durante os últimos anos, a discussão centrou-se no preço do azeite. Uns consideraram-no excessivo. Outros lembraram que durante décadas o azeite foi vendido abaixo do valor que realmente custava produzir. Mas enquanto discutíamos o preço, esquecemo-nos de discutir algo muito mais importante: o valor.

Porque o preço é conjuntural. O valor é estrutural.

Os sinais vindos dos mercados internacionais apontam para uma recuperação da produção mediterrânica e para uma progressiva normalização dos preços. Muitos analistas admitem que, num horizonte relativamente curto, os preços possam regressar a níveis próximos dos registados em 2008! Se isso acontecer, a pergunta torna-se inevitável.

Como sobreviverão os territórios onde produzir azeite custa muito mais?

Como sobreviverão os Olivais Tradicionais?

Como sobreviverão as regiões de montanha?

Como sobreviverão os agricultores que não conseguem competir apenas pelo preço?

A resposta não pode ser produzir mais barato. Porque muitos destes territórios nunca conseguirão produzir mais barato.

A resposta tem de passar por produzir valor.

E aqui Portugal continua atrasado.

Enquanto Itália, Espanha e Grécia construíram ao longo de décadas uma rede extensa de denominações de origem para o azeite — com cerca de 50 DOP e IGP em Itália, mais de 30 em Espanha e perto de 30 na Grécia — Portugal conta atualmente com apenas seis DOP reconhecidas, um número modesto para um país que hoje se encontra entre os maiores produtores mundiais.

O problema não é burocrático.

É estratégico.

As denominações de origem não servem apenas para proteger nomes. São instrumentos de inteligência territorial. Servem para organizar territórios. Servem para comunicar diferenças. Servem para transformar origem em valor económico.

No vinho compreendemos isso há muito tempo.

Ninguém estranha que um vinho do Douro seja diferente de um vinho do Alentejo. Ninguém estranha que uma vinha velha tenha uma identidade própria. Ninguém estranha que a origem faça parte do preço.

No azeite continuamos a fingir que tudo é igual.

Mas não é.

Não é igual produzir numa planície mecanizada ou numa encosta difícil.

Não é igual colher em olivais recentes ou em árvores que atravessaram gerações.

Não é igual produzir num território que carrega séculos de história agrícola.

E quando o mercado trata tudo por igual, o resultado é simples: vence quem produz mais barato.

É precisamente por isso que os processos de valorização da origem devem ser encarados numa perspetiva mais ampla.

As DOP e IGP não são meros instrumentos administrativos. São ferramentas de diferenciação económica, de organização territorial e de comunicação com o consumidor.

A recente proposta da DOP Azeite de Murça, atualmente a aguardar despacho do Secretário de Estado, constitui apenas um exemplo de um desafio que se coloca a muitos territórios olivícolas portugueses.

O objetivo não é proteger um nome por si só.

O objetivo é criar mecanismos que permitam ao consumidor reconhecer diferenças reais de origem, de sistema produtivo e de identidade territorial.

Murça não é um caso isolado.

É apenas um exemplo de uma realidade que atravessa muitos territórios olivícolas portugueses.

A questão é muito maior do que Murça.

Diz respeito a muitas outras regiões onde o olival tradicional continua a desempenhar um papel fundamental na economia local, na paisagem, na cultura e na ocupação do território.

Se queremos que estes territórios continuem vivos, precisamos de criar mecanismos que permitam ao consumidor reconhecer aquilo que hoje permanece invisível.

Porque o verdadeiro desafio do azeite português não é produzir mais.

Também não é vender mais caro.

É conseguir que o consumidor reconheça quando está perante um azeite proveniente de um olival tradicional. Um azeite produzido em explorações familiares, em terrenos difíceis, com árvores antigas e custos de produção muito superiores. Um azeite que transporta consigo uma paisagem, uma história e uma forma de agricultura que dificilmente poderá ser reproduzida noutro lugar.

O setor do azeite enfrenta hoje uma escolha decisiva.

Pode continuar a discutir apenas produção, volume e preço.

Ou pode começar a discutir diferenciação, origem e valor.

Porque quando o consumidor consegue distinguir um frango do campo ou um ovo ao ar livre, está a reconhecer uma realidade produtiva diferente e a fazer uma escolha consciente.

A pergunta que o setor deve colocar a si próprio é simples:

Porque continua o consumidor sem conseguir identificar, de forma clara e imediata, um Azeite de Olival Tradicional?

Talvez seja precisamente aí que reside um dos maiores desafios estratégicos do azeite português para a próxima década.

Porque quando um produto não consegue comunicar aquilo que o torna diferente, acaba inevitavelmente por competir apenas pelo preço.

E quando tudo se resume ao preço, os primeiros a desaparecer são precisamente os sistemas agrícolas que mais território preservam, mais pessoas fixam e mais identidade transportam.

O futuro do olival tradicional português dependerá, em grande medida, da nossa capacidade coletiva para tornar visível aquilo que hoje continua invisível.

Artigo de opinião escrito por: Francisco António Vilela Ribeiro, Médico Veterinário, Presidente do Conselho de Administração da Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça e Administrador da FENAZEITES – Federação Nacional de Cooperativas de Azeite.Foi responsável pela revisão do Caderno de Especificações da DOP Azeite de Trás-os-Montes, aprovada pela União Europeia em 2024, e pelo processo de criação da DOP Azeite de Murça. Dedica-se ao estudo e valorização dos azeites portugueses, com especial enfoque no olival tradicional e nos sistemas de qualidade ligados à origem.