Autoria: Pedro Gonçalves Vaz, INIAV
A regeneração natural do sobreiro é um dos grandes desafios de gestão do montado, um sistema agrossilvopastoril caracterizado pela presença dispersa de sobreiros ou azinheiras em áreas abertas usadas para pastoreio, produção florestal e outros usos. Em muitas explorações, as árvores adultas e o espaço entre elas asseguram produção de cortiça, pastoreio, caça, biodiversidade, e valor paisagístico. Contudo, a entrada de novas árvores no sistema é frequentemente limitada. Este problema é particularmente relevante porque a renovação do arvoredo depende da sobrevivência das plântulas nos primeiros anos, fase em que são muito vulneráveis à seca, à herbivoria, e ao pisoteio.
COMO O PASTOREIO INFLUENCIA A REGENERAÇÃO DO SOBREIRO
Num estudo recentemente publicado no Journal of Environmental Management, avaliámos como o pastoreio de gado bovino influencia a sobrevivência e o rebrote de plântulas de sobreiro em montado. O trabalho foi desenvolvido na Companhia das Lezírias, uma exploração agropecuária do distrito de Santarém, e combinou 12 anos de registos de pastoreio com a monitorização individual de 8431 plântulas de sobreiro, todas com menos de 15 cm inicialmente. As plântulas foram acompanhadas em 20 parcelas pastoreadas e em 4 parcelas sem gado há mais de 12 anos.
Neste contexto, “rebrote” é a capacidade de uma plântula voltar a produzir tecido verde depois de perder a parte aérea visível, por exemplo devido à herbivoria, ao pisoteio ou à seca estival. Nas fases iniciais de vida, uma plântula de sobreiro pode parecer seca ou sem biomassa aérea, mas manter reservas nas estruturas subterrâneas que lhe permitem voltar a crescer. Esta capacidade de recuperação pode ser decisiva para a sua persistência.
MAIS GADO, MENOR SOBREVIVÊNCIA
O estudo mostrou que a sobrevivência das plântulas foi menor nas áreas pastoreadas do que nas áreas sem gado. Dentro das áreas pastoreadas, a sobrevivência diminuiu quando a pressão de pastoreio foi mais elevada e quando o gado esteve presente nos dois anos anteriores ao início da monitorização. Em termos simples, as plântulas tiveram menos hipóteses de persistir quando a pressão bovina foi intensa e recente.
A importância dos períodos de descanso
Um resultado importante é que a ausência de gado durante dois anos melhorou a sobrevivência das plântulas sobretudo quando a pressão de pastoreio anterior tinha sido moderada. Pelo contrário, em áreas sujeitas a pressão elevada, esse período de descanso foi insuficiente para compensar os efeitos acumulados do pastoreio. Isto sugere que os períodos de recuperação devem ser ajustados ao histórico de uso de cada parcela: onde a pressão é maior, o tempo necessário para recuperar a regeneração deve também ser maior (…).
→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo, edição de julho 2026.
NOTA: O artigo científico foi publicado em acesso aberto e pode ser descarregado gratuitamente em https://doi.org/10.1016/j. jenvman.2026.129888
O trabalho foi desenvolvido no âmbito do doutoramento de Abdullah Ibne Wadud, com envolvimento do Centro de Ecologia Aplicada “Prof. Baeta Neves” e do Centro de Estudos Florestais, ambos do Instituto Superior de Agronomia, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária — Polo de Elvas. Contou com financiamento parcial da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e constitui também um resultado do projeto AdaptForGrazing.



