“A poda não se ensina, aprende-se”: Um saber prático e evolutivo.
“A poda não é uma operação que se ensina, é uma operação que se vai aprendendo”, afirma Rui Maia de Sousa, coordenador do Pólo de Fruticultura da Estação Nacional de Fruticultura Vieira Natividade, do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (NIAV), em Alcobaça.

Em entrevista à Voz do Campo, o especialista explica que a poda é uma prática essencial mas complexa, moldada pela experiência, pelo tipo de cultura, e pelas necessidades específicas de cada pomar. “Não há duas áreas iguais”, sublinha, alertando que a análise da planta deve ser feita sempre de forma personalizada, tendo em conta o equilíbrio entre os ramos de frutificação e os ramos vegetativos. E deixa claro o objetivo maior: “Queremos produzir frutos, e frutos de qualidade”.
Do inverno ao verão: a poda está a mudar de estação
Tradicionalmente associada ao inverno, a poda está hoje em transformação. Segundo Rui Maia de Sousa, a tendência é clara: “No futuro, vai-se podar mais no verão e menos no inverno.” A razão está na evolução das ferramentas ao dispor dos fruticultores”. Hoje temos rega, temos fertilização, e podemos estimular a árvore de forma diferente”. A poda de inverno foca-se na formação de madeira, enquanto a de verão privilegia a formação de fruto. “O que nós queremos quando plantamos um pomar é produzir frutos”, reforça. Esta mudança de paradigma exige novos conhecimentos e uma abordagem mais técnica por parte dos agricultores.
Pomar baixo, colheita mais barata: inovação a pensar na mecanização
Os modelos de condução das árvores também se adaptaram aos novos tempos. “Antes utilizavam-se compassos maiores e copas maiores. Hoje, a mão-de-obra é escassa e cara, e temos de reduzir custos”. A solução passa por árvores mais baixas, mais planas, mais acessíveis à colheita mecanizada. A poda mecânica surge como uma resposta à necessidade de eficiência, mas deve ser aplicada com critério. “A poda mecânica não é para fazer no inverno. Ela faz cortes cegos, sem olhar para os órgãos de frutificação. Em verde, conseguimos controlar melhor a resposta da planta”, explica.
“O fator mais barato é a luz” – e ela tem de chegar ao interior da copa
A luz é o recurso essencial que orienta toda a estratégia de poda. “Temos de nos preocupar com o fator de produção mais barato que existe: a luz”, defende Rui Maia de Sousa. Sem ela, a planta não frutifica com qualidade, o que já se verifica em culturas como a amendoeira no Alentejo: “A produção está a concentrar-se na parte exterior da copa por falta de luz no interior”.
Esse é também um fator crítico na sanidade vegetal. “Copas muito fechadas favorecem fungos e pragas. A poda tem de permitir a entrada de luz e ar, dificultar a vida às doenças e ajudar a reduzir a necessidade de produtos fitossanitários”.
Sustentabilidade, produtividade e economia: o novo tripé da fruticultura
A sustentabilidade não pode ser apenas um conceito teórico. “Temos de gerar receita. Se a cultura não nos der dinheiro, nós não a vamos fazer”, alerta. O equilíbrio entre eficiência, produtividade e viabilidade económica é essencial para manter a competitividade no setor. Rui Maia de Sousa conclui com uma síntese prática e valiosa para qualquer fruticultor: “Temos de saber porque é que podamos: para renovar madeira, controlar o espaço da árvore, garantir a entrada de luz, e concentrar a produção. Se soubermos os princípios, podemos adaptar as técnicas”.
→ Leia este e outros artigos exclusivos na Revista Voz do Campo (edição agosto/setembro 2025).



