No primeiro dia do Encontro Nacional de Técnicos da CONFAGRI, realizou-se uma mesa-redonda dedicada às alterações geopolíticas e aos desafios do agronegócio. A sessão foi moderada por Nuno Serra, secretário-geral da CONFAGRI, e contou com os comentários de Miguel Morgado, ex-deputado e professor na Universidade Católica Portuguesa e Sérgio Frade, CEO da Caixa Central do Crédito Agrícola. Teve como key-note speaker Paulo Portas, Ex-Vice-Primeiro-Ministro e Jurista.
PAULO PORTAS DEFENDE ACORDOS COMERCIAIS E DESTACA GANHOS PARA A AGRICULTURA PORTUGUESA
Na sua intervenção como key-note speaker, Paulo Portas assumiu uma posição clara a favor dos acordos comerciais internacionais, em particular com o Mercosul e com a Índia. “Sou a favor do acordo com o Mercosul e sou a favor do acordo com a Índia”, afirma, sublinhando que o setor agrícola português pode retirar ganhos concretos destes entendimentos.
O antigo vice-primeiro-ministro considera inevitável a entrada em vigor da vertente comercial do acordo com o Mercosul, lembrando que existe “maioria qualificada no Conselho para entrar em vigor”, apesar da oposição registada no Parlamento Europeu. Para Paulo Portas, o acordo representa uma oportunidade para contrariar o protecionismo tradicional de mercados como o brasileiro e o argentino, onde “a resposta das administrações é instintivamente protecionismo”.
Apontando exemplos concretos, destaca que Portugal “tem muito a ganhar no vinho e no azeite”, recordando as tarifas elevadas e a burocracia que atualmente condicionam o acesso a esses mercados. Reconhecendo as preocupações com setores sensíveis, como a carne, contrapôs que “nós já importamos 50% da carne que comemos”, defendendo que, no balanço global, “temos mais a ganhar do que a perder”.
Paulo Portas sublinha ainda que as cláusulas de salvaguarda foram reforçadas, explicando que “basta uma alteração de 5% em preços ou quantidades para que possam ser suspensas”, concluindo que, após mais de duas décadas de negociação, “não me parece que tenha sido mal negociado”.
NOVO EQUILÍBRIO GLOBAL EXPÕE FRAGILIDADES ESTRATÉGICAS DA EUROPA
Miguel Morgado, ex-deputado e professor na Universidade Católica Portuguesa, enquadrou os atuais desafios do agronegócio num contexto geopolítico mais amplo, marcado por uma profunda mudança de centros de poder. Para o professor, “a Índia é o futuro” e “a China ainda é o presente e o futuro próximo”, considerando que o mundo atravessa uma fase que faz lembrar “o mundo pré-século XVIII”.
Miguel Morgado alerta, contudo, para uma tensão crescente entre dois caminhos estratégicos, por um lado a aposta na autonomia estratégica e, por outro, a procura de novos acordos de comércio livre que garantam melhores condições aos exportadores europeus. Um dilema que, na sua leitura, revela uma fragilidade estrutural do Ocidente.
Na análise do professor, a Europa Ocidental perdeu, nas últimas décadas, uma caraterística essencial à afirmação geopolítica. “A Europa Ocidental perdeu uma caraterística onde assenta a vitalidade de todas as potências geopolíticas”, afirma, apontando como fator central “a vontade de existir na sua especificidade cultural no futuro”.
“FELIZMENTE O SETOR É MUITO RESILIENTE”
Sérgio Frade, CEO da Caixa Central do Crédito Agrícola, sublinha a capacidade de resistência do setor agrícola perante sucessivas crises. Na sua perspetiva, “felizmente o setor é muito resiliente, já passou por N crises e não deixa de ser uma”, acrescentando que essa realidade exige uma resposta assente na adaptação e na inovação.
O CEO da Caixa Central do Crédito Agrícola defende que a lógica de análise dos projetos agrícolas tem vindo a evoluir, sublinhando que “já não basta produtividade”, sendo hoje indispensável garantir “resiliência ao nível da produção energética, dos fatores de produção e também da sustentabilidade”. Uma abordagem que, segundo o responsável, reflete a necessidade de preparar o setor para um contexto cada vez mais exigente e incerto.
Do ponto de vista financeiro, destaca uma mudança clara na forma como o capital é alocado, com maior foco no longo prazo. “Garantir que o capital é alocado onde faz mais falta, a projetos que não sejam apenas rentáveis amanhã, mas que estejam cá também a 10 ou 20 anos”, afirma, assumindo esse compromisso como parte do papel do setor bancário.
O CEO do Crédito Agrícola reforça ainda a ligação histórica da instituição bancária aos territórios e à produção agrícola, lembrando que o banco “nasce nas regiões, nasce nas comunidades”, muitas delas no interior do país, onde a agricultura é um setor estrutural. Nesse contexto, frisa que o grupo é “líder do mercado na agricultura, com muita honra e muito orgulho”, assegurando a continuidade desse posicionamento.
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