GRANDE ENTREVISTA A JOÃO BASTOS, SECRETÁRIO-GERAL DA FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE ASSOCIAÇÕES DE SUINICULTORES (FPAS)

O setor da suinicultura atravessa um período de transformação profunda, marcado pela modernização tecnológica, pela concentração empresarial e pela crescente capacidade exportadora. Nesta entrevista, João Bastos, secretário-geral da FPAS, traça o retrato atual da suinicultura portuguesa.

Como caracteriza atualmente o setor da suinicultura em Portugal?
O setor da suinicultura em Portugal tem sofrido várias alterações a diversos níveis que fazem com que o perfil do setor hoje seja bastante distinto do que tínhamos há 10, 15, 20 anos…

A nível técnico o setor evoluiu bastante com a integração de profissionais cada vez mais qualificados, com o melhoramento genético acelerado e com técnicas de maneio (como a inseminação artificial pós-cervical) que fizeram evoluir significativamente os índices zootécnicos da atividade suinícola.

A nível empresarial, o setor passou por muitas crises nos últimos 20 anos. Isto levou, primeiro, à verticalização do setor, com as empresas a sentirem necessidade de ter um controlo de fileira, investindo na sua própria fábrica de alimentos compostos e, em muitos casos, sendo também industriais da carne.

“Houve ganho de escala de algumas empresas, dotando-se de capacidade exportadora”.

Num segundo momento estas crises provocaram o abandono da atividade de muitos suinicultores levando a uma forte concentração da oferta.
Esta dinâmica do setor resultou no ganho de escala de algumas empresas, dotando-as de capacidade exportadora, com níveis de produtividade ao nível do melhor que se faz no mundo e garantindo que hoje a suinicultura portuguesa é bastante competitiva no mercado global.

Qual é o peso económico do setor em Portugal?
Isolando o setor da produção, em 2024 o volume de negócios foi de 816 milhões. Considerando a fileira (alimentos compostos, produção e indústria) é uma atividade que representa 2,5 mil milhões de euros anuais.

Quais os maiores desafios que os produtores enfrentam no dia a dia?
Licenciamento. A maior parte das explorações de suínos em Portugal foram edificadas no final da década de 70 em regiões próximas dos grandes centros de consumo. A expansão da malha urbana fez com que essas explorações passassem a estar inseridas em meio urbano, muitas vezes entrando em conflito com os instrumentos de gestão territorial.

Este é um processo (de regularização das edificações) que se arrasta há anos sem resolução e temos uma situação inusitada de termos a atividade pecuária regularizada em edifícios irregulares.

Urge encontrar um enquadramento legal que permita que estas explorações saiam do limbo em que se encontram e regularizar de forma ágil, simples e rápida as explorações que são regularizáveis e que não estão conflituantes com IGTs como a REN, a RAN ou a Rede Natura 2000 e fechar as que não podem ser regularizadas.

Não há nenhum negócio que se permita estar mais de 10 anos à espera de uma licença para funcionar, como comummente acontece na suinicultura e na atividade pecuária em geral.

Em termos de ameaças sanitárias emergentes, quais as principais preocupações em redor por exemplo da Peste Suína Africana e do PRRS (Vírus da Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos)?
As preocupações são máximas. O país tem de estar alerta para a situação sanitária na Europa. A Peste Suína Africana já se alastra a toda a Europa de Centro e de Leste, estando numa situação de difícil controlo em países grandes produtores como a Alemanha, Itália e Polónia.

Para já, a Península Ibérica e França estão indemnes a esta doença, o que nos dá algum conforto do distanciamento a esta doença, mas os cuidados com biossegurança têm de ser máximos. Temos trabalhadores nas nossas explorações oriundos de países afetados, como Roménia e Ucrânia, que, por vezes, recebem produtos alimentares dos seus países de origem, temos circulação rodoviária que atravessa países afetados e têm como destino final explorações em países indemnes, como o caso do transporte de leitões com origem na Polónia e destino a engorda em Espanha e temos sistemas extensivos que, por muitos cuidados que os suinicultores tenham, correm sempre maiores riscos de contactos com javalis (…)”.

Não perca: a Grande Entrevista na íntegra, na edição de novembro.