Portugal enfrenta hoje uma realidade inevitável: as alterações climáticas originam catástrofes naturais, secas, incêndios, cheias e tempestades, que se tornarão cada vez mais frequentes e intensas.

Na minha opinião, até agora, a agricultura tem seguido um modelo reativo, atuando apenas depois da destruição, quando as perdas já são irreversíveis e os agricultores enfrentam sérias dificuldades económicas. Este modelo, embora tradicional, já não é suficiente. É urgente passar para um modelo preventivo e resiliente, capaz de antecipar riscos, proteger a produção e garantir a continuidade da atividade agrícola.

João Rodrigues – Engenheiro Agrónomo

Na teoria, o discurso político e institucional aponta para adaptação, inovação e sustentabilidade, abordando conceitos como agricultura inteligente, transição verde, eficiência hídrica e modernização dos sistemas de rega. Na prática, porém, a realidade no terreno é diferente. Muitos agricultores continuam a trabalhar com recursos limitados, infraestruturas frágeis e fraco apoio técnico, enfrentando exigências ambientais crescentes sem proteção económica adequada.

A resposta às catástrofes naturais é um dos aspetos mais reveladores dessa fragilidade. Sempre que ocorrem incêndios, cheias ou secas extremas, as ajudas chegam tarde, são burocráticas e muitas vezes insuficientes. Em vez de uma política de prevenção, mantém-se uma lógica de reação tardia, que apenas adia o próximo colapso.

Sendo impossível eliminar estas catástrofes naturais, a prevenção é sempre mais eficaz e menos dispendiosa do que a reação. Preparar a agricultura exige uma mudança de paradigma: passar de um modelo reativo para um modelo preventivo e resiliente.

Num modelo preventivo, a prioridade é reduzir o impacto das catástrofes antes que ocorram, através de gestão sustentável da água, diversificação de culturas, proteção dos solos, prevenção de incêndios, monitorização climática e ordenamento agrícola inteligente. Num modelo resiliente, o foco está na capacidade de resposta e recuperação, com seguros acessíveis, fundos de emergência, planos de ação regionais, apoio técnico permanente e mecanismos rápidos de reconstrução.

Enquanto o modelo reativo apenas responde à destruição, o modelo preventivo e resiliente constrói segurança, estabilidade e continuidade produtiva, garantindo não apenas a agricultura, mas também a segurança alimentar, a coesão territorial e a sustentabilidade económica do país.

Deixo a seguinte ideia, naquilo que penso ser um dos elementos centrais deste modelo preventivo e resiliente que poderia ser implementado: A criação de equipas multidisciplinares especializadas de intervenção rápida, compostas, por exemplo, por agricultores, engenheiros nas áreas das ciências naturais, civis, topógrafos, bombeiros, especialistas em gestão de incêndios, profissionais de proteção civil, logística, veterinários e técnicos em pecuária, meteorologistas, especialistas em clima, militares, entre outros. Estas equipas seriam treinadas exclusivamente para situações de emergência e estariam prontas para atuar imediatamente perante incêndios, cheias, tempestades ou secas extremas, em coordenação direta com autarquias, plataformas de monitorização climática e outros organismos públicos e privados, garantindo que os danos sejam minimizados e que a recuperação da agricultura seja  mais rápida, eficaz e organizada.

Para que estas equipas funcionem eficazmente, é necessário:

  • Planeamento estratégico: identificar e mapear zonas de risco e criar protocolos claros de atuação.
  • Treino e capacitação contínua: formar profissionais em emergência agrícola, salvamento de animais e proteção de infraestruturas, com exercícios periódicos.
  • Infraestrutura e equipamentos adequados: veículos, ferramentas, drones, kits de emergência e centros logísticos próximos das áreas vulneráveis identificadas.
  • Coordenação com autoridades e agricultores: integração com autarquias, bombeiros, proteção civil e produtores locais, com canais de alerta rápidos.
  • Recursos financeiros e apoio institucional: orçamento contínuo e fundos de emergência para atuação imediata.
  • Monitorização e prevenção contínua: sensores climáticos, alertas meteorológicos e avaliação constante do risco.

Funções principais das equipas:

  • Avaliação rápida de danos: identificar áreas afetadas, culturas destruídas e necessidades urgentes.
  • Proteção de pessoas e animais: coordenar evacuações, prestar apoio veterinário e garantir segurança nas explorações.
  • Atuação técnica imediata: estabilizar solos, controlar erosão, proteger reservas de água e interromper a propagação de incêndios.
  • Suporte logístico e material: fornecer equipamentos, sementes, rações e ferramentas para a recuperação inicial.
  • Comunicação e coordenação: ligar-se a autarquias, autoridades, bombeiros, serviços agrícolas e agricultores locais, garantindo uma resposta organizada.

Benefícios:

  • Redução significativa de perdas humanas, de animais e económicas.
  • Aumento da confiança dos agricultores e da comunidade rural.
  • Maior rapidez na recuperação e retomada da produção.
  • Consolidação de um modelo agrícola resiliente, cada vez mais capaz de enfrentar catástrofes recorrentes.

Estas equipas estariam dedicadas exclusivamente à prevenção e intervenção em catástrofes naturais, garantindo que cada segundo conta e que os danos humanos, económicos e agrícolas sejam minimizados.

Equipas multidisciplinares especializadas de intervenção rápida não são apenas uma reação, mas um elemento preventivo que fortalece a resiliência da agricultura portuguesa frente às catástrofes climáticas.

Mudar este paradigma não é uma opção ideológica; é uma necessidade estrutural.

Num contexto de alterações climáticas, continuar apenas a reagir condena o setor agrícola à fragilidade permanente.

Prevenir, fortalecer e organizar a resposta é, possivelmente, a estratégia mais inteligente para enfrentar as catástrofes do presente e do futuro e tornar o país cada vez menos vulnerável.


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